SOCIEDADE CONSUMOCENTRISTA: CRESCIMENTO OU DECRESCIMENTO?

Atualmente se vive numa sociedade consumocentrista, a qual se caracteriza pelo consumo como centro da mesma. São criados novos seres, ou seja, seres consumidores. Esse novo ser, consumidor, gerado por essa sociedade detém seu foco de vida no consumo e acaba se rendendo a esse modelo que dita as regras, a moda e as culturas, mas que torna esse sujeito inconsciente dos reflexos de seus atos, sendo alienado de qualquer consequência, pois é adestrado e docilizado, mesmo que de forma inconsciente. Esse consumo gera uma série de impactos socioambientais, ou seja, tanto o meio ambiente como a sociedade sofrem.

Com esse crescimento econômico desordenado na busca de capital e progresso, não há uma gestão de resíduos e respeito aos ciclos vitais do planeta e, também, não há respeito e igualdade entre os seres humanos, pois poucos concentram o poder nas suas mãos e muitos vivem em condições de vida desumanas, não tendo o mínimo existencial e a dignidade humana. Por isso se faz necessário pensar na forma de crescimento econômico que se vive na sociedade consumocentrista.

É essencial a conscientização de que existe necessidade de um tipo de sociedade diferenciada que leve a todos, seja os cidadãos, os governantes e as grandes corporações a entender que essa forma de crescimento baseada no lucro é insustentável.

Deste modo se apresenta a teoria do decrescimento. O conceito econômico de decrescimento foi implementado pelo economista romeno, na década de 70, Nicholas Georgescu-Roegen, sendo o precursor da chamada bioeconomia. O autor se preocupava com a sobrevivência da vida no planeta Terra e, para isso, evidenciava a relação entre a lei da entropia e os processos econômicos vigentes naquele período. Apresenta a noção de se criar uma economia que ficasse num estado estacionário e a produção que excedesse a capacidade natural dos ecossistemas precisava ser freada. Portanto se deveria administrar a economia da forma como está, sem buscar mais acumulação de capital e lucro. (GEORGESCU-ROEGEN, 2012).

Na visão de Latouche o sistema capitalista como uma sociedade que visa o lucro e a economia tem o objetivo do crescimento pelo próprio crescimento, não se importando com as consequências que isso vai trazer e quais os problemas que se irá sofrer. O autor enfatiza "fortemente o abandono do objetivo do crescimento ilimitado, objetivo cujo motor não é outro senão a busca do lucro por parte dos detentores do capital, como consequências desastrosas para o meio ambiente e, portanto, para a humanidade" (2009, p. 04). Continua demonstrando que "o decrescimento não é um crescimento negativo" (LATOUCHE, 2009, p.05), mas é uma forma de diminuir a velocidade do crescimento que se impõe nas sociedades como uma forma de incerteza e de exclusão social, vez que, através dele ocorre o aumento da taxa de desemprego o abandono dos programas sociais, sanitários, educativos, ambientais e culturais que visam a garantia do mínimo vital, ou seja, do mínimo existencial as pessoas. (LATOUCHE, 2009, p.05).

Já na visão de Leff (2008, p. 84, tradução nossa)[1], o decrescimento não é apenas um slogan ideológico contra um mito, mas sim um fator para mobilizar a sociedade contra os males causados ​​pelo crescimento, ou por seu resultado fatal. A ideia é que não se deve pensar apenas em termos de diminuir, mas sim uma transição para uma economia que seja sustentável. Isso não poderia ser uma ecologização da racionalidade econômica existente, mas outra economia, fundada em outros princípios produtivos. A queda implica na desconstrução da economia, ao mesmo tempo em que uma nova racionalidade produtiva é construída.

Portanto existe a necessidade de pensar que tipo de sociedade se vive e, a partir disso, analisar se essa forma de crescimento econômico predatório e de progresso são realmente essenciais. É necessário questionar as nossas atitudes e buscar a alteridade, a cooperação e a empatia, e quem sabe, se pode aprender algo com a teoria do decrescimento nesse mundo consumocentrista.

Referências.

GEORGESCU-ROEGEN, NICHOLAS. O decrescimento. Entropia, ecologia, economia. São Paulo: Senac, 2012.

LATOUCHE, Serge. Pequeno tratado do decrescimento sereno. São Paulo: Editora WMF, 2009.

LEFF, Enrique. Decrecimiento o desconstrucción de la economía: Hacia un mundo sustentable. Revista Polis, v. 7, n. 21, 2008. Prólogo, p. 81-90. Editorial de la Universidad Bolivariana De Chile, 2008.

PEREIRA, Agostinho Oli Koppe; CALGARO, Cleide; PEREIRA, Henrique Mioranza Koppe. Consumocentrismo e os seus reflexos socioambientais na sociedade contemporânea. Revista Direito Ambiental e Sociedade, v. 6, p. 264-279, 2016.

[1] "El llamado al decrecimiento no es tan sólo un slogan ideológico contra un mito, un mot d'ordre para movilizar a la sociedad contra los males generados por el crecimiento, o por su desenlace fatal. No es una contraorden para huir del crecimiento como los hippies pudieron abstraerse de la cultura dominante, ni un elogio de las comunidades marginadas del 'desarrollo'. Hoy ni siquiera las comunidades indígenas más aisladas están a salvo o pueden desvincularse de los efectos de la globalización insuflada por el fuelle del crecimiento económico. Pero ¿Cómo desactivar el crecimiento de un proceso que tiene instaurado en su estructura originaria y en su código genético un motor que lo impulsa a crecer o morir? ¿Cómo llevar a cabo tal propósito sin generar como consecuencia una recesión económica con impactos socioambientales de alcance global y planetario? Pues si bien la economía por sus propias crisis internas no alcanza a crecer lo que quisieran jefes de gobierno y empresarios, frenar propositivamente el crecimiento es apostar por una crisis económica de efectos incalculables. Por ello no debemos pensar solamente en términos de decrecimiento, sino de una transición hacia una economía sustentable. Ésta no podría ser una ecologización de la racionalidad económica existente, sino otra economía, fundada en otros principios productivos. El decrecimiento implica la desconstrucción de la economía, al tiempo que se construye una nueva racionalidad productiva" (LEFF, 2008, p. 84).

CALGARO, Cleide. SOCIEDADE CONSUMOCENTRISTA: CRESCIMENTO OU DECRESCIMENTO?. Revista Páginas de Direito, Porto Alegre, ano 21, nº 1547, 30 de agosto de 2021. Disponível em: https://www.paginasdedireito.com.br/colunistas/listagem-de-artigos-colunistas-por-periodo/494-cleide-calgaro/8733-sociedade-consumocentrista-crescimento-ou-decrescimento

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Categoria: Cleide Calgaro

ISSN 1981-1578

Editores: 

José Maria Tesheiner

(Prof. Dir. Proc. Civil PUC-RS Aposentado)

Mariângela Guerreiro Milhoranza da Rocha

Advogada e Professora Universitária

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